Um dia desses eu estava assistindo a um Café Filosófico em que o historiador Leandro Karnal expõe uma das obra de Shakespeare, Hamlet, através de uma ótica analítica da nossa sociedade como um tudo, mas principalmente uma análise do ser humano, do homem moderno focado na personagem principal, Hamlet.

Eu poderia passar horas divagando por cada um dos pontos dessa palestra, cada minuto é tão rico em conteúdo e análise que já nem a vejo como um tudo, mas sim como uma série com partes muito bem expostas e todas dignas de atenção. Bem, não cabe a mim dizer qual ponto é mais interessante, mas enquanto ouvia um pensamento abordado saltou aos olhos e talvez nem seja o mais relevante, mas foi o que fez um sentido especial para mim.

Um parêntese especial para quem não sabe muito bem do que se trata essa obra “No resumo a peça escrita por Shakespeare trata-se de uma vingança. O Príncipe Hamlet tenta vingar a morte de seu pai, o rei, executado por seu irmão Cláudio que o envenenou e em seguida tomou o trono casando-se com a rainha Gertrudes. De estrutura dramática a peça traça a loucura real e a loucura fingida da personagem principal, que busca a vingança pela morte do pai, abordando temas como traição, vingança, incesto corrupção, moralidade e loucura. A peça também trás o famoso monólogo em que Hamlet diz a célebre frase ‘Ser ou não ser, eis a questão’ “. 

Em um das partes da peça Hamlet diz a Horácio, um grande amigo do príncipe, que ele entregaria de bom grado seu coração a um homem que fosse senhor das suas emoções. Na palestra Karnal aborda esse trecho caracterizando-o a uma pessoa que tem domínio de si, ao contrário dos passionais que são dominados por suas paixões e sentimento ardorosos. Para Hamlet uma pessoa que sabe controlar a si mesma pode, e muito, beneficiar-se. O estoicismo de Hamlet, a rigidez de princípio morais, é de alguém que se conhece.

Fiquei pensando sobre isso. A importância de conhecer-se.

Não posso afirmar que conheço uma única pessoa sequer que seja senhor, senhora, de suas emoções. Somos seres dotados de paixões e muito de nós vivemos guiados por elas. Mas o ponto apresentando por Hamlet é um tanto quanto interessante e creio que seja preciso ponderar sobre o assunto.

É preciso conhecer-te muito bem para relevar certas coisas. Karnal diz; “só posso me ofender se eu não me conhecer”.

Encaremos a realidade, críticas, comentários maldosos, opiniões divergentes, que podem vir em um formato mais educado e outras que usam recursos nem tão agradáveis que depreciam a nós e nossos semelhantes, sempre vão existir. Solução não há para essa pequenez de pensamento. Pessoas que vomitam uma porção de asneiras vão continuar a fazer parte da sociedade, e quem disse que nós também já não estivemos do outro lado? Fácil é dizer que sofreu, difícil é aceitar que também já fez sofrer.

Concordo que não podemos nos calar, é preciso falar, é preciso viver nossas verdades e lutar por aquilo que acreditamos. Bem, precisamos, mas até que ponto? Relevar também faz bem, dominar a sim mesmo é uma dádiva.

As pessoas vão te contrariar, vão ser más, rudes e isso dá raiva, dá sim! Mas o peso também vai muito de você. Alguém te insulta dizendo algo sobre uma questão de caráter pessoal, bem, podes pensar por duas hipóteses racionais; a pessoa está dizendo a verdade, ou pode estar mentido. Racionalizar? Sim. Conhece-te a ti mesmo. Sabes quem és? És firme nas suas convicções? Tens um espelho em casa, conhece seu corpo, conhece seus desejos, sabes o que queres da vida, onde quer chegar? Tenha consciência dos seus defeitos e virtudes e evite ser joguete das opiniões alheias. Sempre há duas hipóteses, a pessoa diz a verdade, logo não me importo, ou a pessoa diz uma mentira, logo não me importo.

Do outro lado sempre haverá uma torcida a favor, e outra contra que está lá fazendo um auê desnecessário. Tomar as rédeas não é fácil, ninguém disse que serua. Mas conhecer a si mesmo é um passo muito importante, e talvez o resumo de uma vida. Sê fiel a ti mesmo e jamais serás falso com ninguém.

Vejo tudo isso como uma brincadeira de gangorra, você de um lado a galera do contra do outro. A brincadeira só vai continuar se cada um jogar o peso de suas ideias sobre o outro. Pesando para que um suba enquanto outro desce. E assim vamos de um lado para o outro, cada um querendo ter mais força ou relevância. Até que um dia a brincadeira cansa e você decidi sair daquele sobe e desce para passear pelo parque em busca de coisas novas. Os outros vão ficar lá sentados sem ninguém para colocar para baixo, ou deixar de castigo lá em cima. A brincadeira acabou e você muito bem ciente de si mesmo, das suas escolhas, opiniões e paixões vai procurar mais o que fazer.