Foto: reprodução/ Tumblr

Não é que eu tenha medo mortal de morcegos, o que sinto está mais para uma agonia. Algo equiparado com o desconforto quando alguém escreve na lousa com o giz e aquele som agudo irritante ecoa pela sala. Quando alguém estala os dedos com força ao seu lado, ou quando por azar toma-se uma bebida muito quente, fria também serve, e os dentes sentem aquela gastura. Sabe o que eu estou falando? Então, é isso que eu sinto quando vejo um morcego, não é medo, é, bem, é uma aflição.

Por alguma razão uma família de morcegos se alojou na sauna desativada onde guardo algumas das minhas tranqueiras. Eram dois morcegos grandes e três pequenos que ficavam pendurados nos fios que ligam a lâmpada ao teto. Certo dia fui buscar uns livros e dei de cara com todos eles. Só de pensar me dá um calafrio aqui no canto da nuca. Acendi a luz. Não resolveu. Peguei a vassoura e tentei afasta-los até a porta. O meu único erro foi permanecer dentro da sauna enquanto efetuava tal missão. Resultado? Eu que saí aos pulos, enquanto eles continuavam tranquilos dentro do forte. De acordo com a minha estratégia era para ter acontecido o contrário. Fiquei alguns minutos sentada do lado de fora encarado a família toda unida e dependurada na lâmpada. Empreendi outros ataques igualmente frustrantes, até dar-me por vencida e recorrer ao armamento pesado.

– Mas você não tem agonia desses bichinhos aí? – Perguntei do lado de fora enquanto minha mãe entrava na sauna para afastar os morcegos. – Não, acho até bonitinho. – ela disse enquanto cutucava com a vassoura a pelota que os morcegos formavam quando estavam unidos, agarrados uns aos outros. Eles passaram voando pela porta. Minha mãe saiu muito calmamente da sauna, fechou a porta e disse: – Guarde a vassoura. Eu fiquei parada como uma boa perdedora me sentido boba por ainda precisar da minha mãe para afugentar morcegos. “Fiz papel de trouxa”, admiti para mim mesma.

Mas os infortunios não param por aí.

Semana passada um morcego entrou na cozinha de casa. Era dos grandes! Para o meu azar e total desespero eu estava sozinha, apenas com a minha irmãzinha de sete anos. E apesar de ela não ser de grande valia ainda assim tive a falta de vergonha na cara de procura-la clamando por piedade e ajuda.

– Eliza corre aqui, gritei,  tem um morcego em casa! Ela apareceu de pés descalços e braço imobilizado, por causa do acidente no escorregador do parquinho. Muito calmamente olhou para mim, olhou para o morcego pendurado no vão da porta e disse: – Tira, oras, eu tô assistindo desenho. Me deu as costas e voltou para a sala de onde eu a havia tirado com meu grito de desespero. Fiquei desassossegada. Apesar de ela ser uma criança tive a ilusão que ela iria me ajudar de alguma maneira.

Enquanto eu ponderava sobre a petulância de minha irmã o morcego deu um voo rasante até a prateleira de mantimentos localizada ao meu lado. Pulei de horror e corri para a sala. Como louca comecei a fechar todas as portas dos quartos para que ele não tivesse acesso a nenhum outro cômodo da casa. Parei por um momento para analisar a situação e criei mais uma das minhas estratégias, nem sempre tão brilhantes, para retirar aquele morcego maléfico da cozinha.

Sob uma chuva de protesto da Eliza Victória recolhi todos os brinquedos espalhados no chão da sala em uma caixa. Armei uma trincheira com uma visão estratégica do armário, entre um dos cômodos de acesso a cozinha, e declarei guerra. Foi o estopim. Ursinhos de pelúcia foram atirados, Barbies e peças de lego voaram até a cozinha, e até meu maiô da natação entrou como munição da artilheria.

Resultado? Nada. Não resolveu nada! Apesar de todos os objetos atirados o morcego não se movia. E não foi pela minha falta de mira, muitos deles o acertaram, mas o pobre continuava imóvel no seu posto perto da lata de molho de tomate. Lá pelo fim da munição comecei a sentir remorso. O fervor do momento estava passando e comecei a cair em mim. Me senti uma tirana, e pior, uma tirana fraca e medrosa! Não imagino pior tipo.

Dessa vez optei por seguir uma linha de pensamento mais racional para sair do enrosco. O tal morcego era muito menor do que eu, estava duplamente assustado e provavelmente estava esperando o pior. Não que eu fosse mata-lo, mas o susto já estava dado. E ele já parecia estar pedindo perdão pelos seus pecados e entregando-se a Deus. “Senhor, dessa vez eu não sobrevivo. Essa louca vai me matar.” Eu bancava o papel de trouxa, novamente. Admito! Mas o erro já estava feito e pedir perdão depois do erro pode até confortar, mas na verdade todo mundo sabe que melhor que pedir perdão é pensar antes e não cometer a falta.

Cessei fogo.

O morcego viu então uma chance de escapar. Voou, mas infelizmente não conseguiu ir muito longe. Acabou caindo de cansaço no escorredor de louça ainda molhado. Por sorte estava vazio. Me aproximei, abri a janela e muito delicadamente, o máximo que pude, coloquei o escorredor para fora. Foi então que eu o vi. De asas semi abertas, postura prostrada e exausto. Senti muita pena. Passou por mim uma compaixão que nunca pensei que sentiria por um morcego. Até comecei a achar sua aparência agradável. Aquele nariz achatado e olhinhos puxados não eram mais tão repugnantes quanto eu pensava. Porém, acho que ele não sentiu o mesmo por mim. Pela perspectiva contrária eu provavelmente estava para um ser muito estranho de olhos esbugalhados e boca grande. Não sei se morcegos enxergam bem, creio que não. Provavelmente ele teve ter usado aquele sonar e deduzido que estava numa bela de uma enrascada.

– Vamos seu morcego, voe! – disse, mas ele não se moveu. – Vamos, voe! Ele parecia indiferente às minhas ordens. Dei uma sacudida no escorredor com cuidado para não machuca-lo, como se isso fosse suavizar a minha conduta anterior. Todos aqueles ursinhos que eu havia atirado contra ele ainda me causavam remorso, eu já não queria ser tão violenta. Não funcionou. Tentei mais uma vez, sacudindo o escorredor com mais força. Mas dessa vez a força que empreguei no escorredor foi mais dolorida para mim. Vi o bichinho sendo chacoalhado e pela primeira vez senti uma caridade sincera pela pobre criatura. Aparentemente ele entendeu a intenção, bateu as asas e voou jardim a dentro.

Fiquei parada olhando pela janela para ter certeza que ele tinha ido embora. Aliviada constatei que o pobre tinha conseguindo escapar de mim. Fiquei feliz por ele, até desejei que ele criasse uma família que nem aqueles outros que estavam na sauna, ou se já tivesse uma família que ele pudesse voltar para casa em paz e reunisse os filhos para contar a grande aventura do dia que ele quase morreu nas mãos de um monstro histérico. Divaguei em pensamentos ilógicos só para não perder o costume. No fim concluí, para minha surpresa, que nunca se sabe quais criaturas despertarão afeto. Aparentemente até as mais repugnantes podem tornar-se amigáveis se olhadas por outro ângulo.

Fechei a janela e comecei a arrumar a bagunça que eu tinha feito.