vuou-gastronomia

Agora que percebi que já faz quase um mês que não o atualizo o blog. As coisas aqui desse lado continuam na mesma, porém também não. Exteriormente sinto que muito continua igual, o cotidiano, os mesmos compromissos, roupas e livros velhos. Mas por dentro sinto-me em plena evolução, a cada semana um novo sentimento, uma nova percepção, lição e escolhas internas. Me sinto como o mar, na superfície plácido e de um imenso azul, mas por dentro a vida borbulhando, cheio de segredos para desbravar.

Semana passada entrei numa mini crise sobre a minha faculdade e questionei as minhas escolhas. Os sentimentos são dúbios. Por um lado estou amando cozinhar e aprender mais sobre a gastronomia, por outro estou duvidando da minha capacidade de encarar a rotina de um restaurante. Será que aquilo que faço por amor acaba perdendo o sentido quando vira uma obrigação? A paixão acaba quando torna-se uma rotina?

Na segunda-feira eu tive um estalo enquanto divagava em pensamentos estirada no sofá de casa. Não vou me estender nas explicações das ligações dos meus pensamentos, não quero entendia-los. Um resumo: para mim a comida é muito importante, é vida, é amor, é expressão, é carinho, é sensação, é justiça, é mudança, é prazer, é doação e renovação. Só que ainda há muitas pessoas que passam fome ou que não possuem acesso a uma alimentação de qualidade. Como eu posso mudar isso?

Ainda não tenho respostas, mas muitas perguntas. Uma coisa que aprendi com o meu pai durante a faculdade (ele foi meu professor de pesquisa de mercado) é que as perguntas são mais importantes que as respostas. Elas são como portas de entrada, você precisa entrar da maneira certa.

Gostaria de compartilhar com você algumas das perguntas que estou fazendo a mim mesma:

  • Como eu posso tornar a alimentação em um agente de mudança?
  • Como conscientizar as pessoas que uma boa refeição é um vínculo familiar? Uma maneira de aproximar os relacionamentos, unir corações através da cozinha?
  • Uma pessoa comum pode ajudar o sistema alimentar de um país? Tornando-o mais sustentável?
  • De que forma as pessoas que vivem numa economia de consumo alimentar especializada podem reduzir sua dependência e ter mais autossuficiência?
  • Como devolver às pessoas o real prazer da alimentação?
  • Como dignificar pessoas através da comida?
  • Como estabelecer conexões através de um prato de comida?

Todas essas perguntas surgiram porque finalmente encarei de frente a injusta maneira como o nosso alimento é distribuído. Muitas vezes fechei os olhos para não sofrer ao ver a injustiça que me rodeia e foquei apenas na minha vida. É difícil encarar algo que está errado e perceber que você não faz nada para melhorar. Felizmente eu tenho o que comer, felizmente tenho oportunidades, felizmente posso até me dar ao luxo de pular refeições. Porém não preciso ir muito longe para ver pessoas que não possuem a mesma sorte. A fome está presente em todos os lugares, não só em países extremamente pobres e em conflitos, mas aqui perto da gente. Também há a fartura e desperdício de alimentos. O que poderia ser evitado se houvesse uma melhor distribuição e planejamento. O que sobra na nossa casa poderia alimentar mais pessoas e devolver a dignidade delas. A alimentação é uma necessidade básica, portanto é um direito. Porém muitas pessoas não sabem o que é um bom prato de comida, e isso me dói demais!

Ainda na segunda-feira fui com alguns amigos até o cinema assistir Blade Runner (que é muito bom por sinal, assistam), antes de o filme começar passamos na praça de alimentação para pegar o nosso “jantar”. A praça estava lotada. Havia fila em cada fast food. Fiz o meu pedido, uma batata recheada, e fiquei esperando a minha senha aparecer no monitor. Enquanto esperava eu fiquei observando as pessoas. Pais, filhos, casais, amigos, jovens e idosos, enfiando goela à dentro uma comida meio sem graça, sem cor, sem aroma de temperos, e eu sabia que o sabor era embutido e artificial, além disso o valor dos pratos não era justo. Veja bem, não tiro o meu da reta, eu também fazia parte da estatística. Pessoas se alimentando mal e pagando caro por isso. Me senti incomodada por aquelas pessoas, pelos meus amigos e por mim também, merecíamos muito mais do aquilo. Para a maioria deles aquela comida estava ótima e muito gostosa. Será que só eu que estava me incomodando? Não é chatice, mas é que quando se descobre que existe algo melhor você passa a questionar os status quo.

Enquanto eu me perdia em pensamentos uma senhora com duas crianças apareceu na praça de alimentação pedindo os restos dos pratos das pessoas nas mesas. Ela vestia roupas humildes, as pernas dela estavam com feridas e as duas crianças não tinham mais de cinco anos, era uma menina e um menino. O menino chorava, a menina tinha os olhos estalados e parecia assustada. Observei-os de longe, eles passaram por várias mesas e não obtiveram sucesso. Ninguém compartilhou a refeição com eles. Eu fiquei com dó no primeiro momento, depois liguei meu modo julgador, julguei a senhora por ela estar naquela situação, por fazer aquilo com aquelas crianças, enfim… fui uma vaca. Aí eles passaram por mim, como eu ainda não tinha pego minha batata ela nem parou para me pedir nada. Seguiu em frente. Quando vi eles darem as costas para mim e irem embora senti que eu tinha deixado uma chance passar, uma chance de simplesmente não julgar outro ser humano e fazer aquilo que eu gostaria que alguém fizesse por mim. Meu coração apertou. Dei um suspiro profundo e me apressei para alcança-los. Eu não tinha comida, só dois pacotes de chocolate que eu havia comprado para comer durante o filme, era o máximo que eu tinha para oferecer na hora. Pedi licença para a senhora e me agachei até o nível das crianças. Dei um pacote para cada uma. Elas abriram os pacotes e enfiaram o cocholate com pressa na boca, dei um sorriso forçado porque na real eu estava com vontade de chorar. Vi de perto aquilo que eu tentava fazer de conta que não existe, a fome. Me afastei deles. Eles sumiram entre as mesas e eu fiquei olhando para o teto para ver se as lágrimas voltam para dentro de mim. O meu pedido ainda demorou a chegar, meus amigos apareceram e eu voltei a rir.

R$20,00, foi o que eu paguei por aquela batata. Fazendo as contas com R$20,00 eu poderia ter comprado dois pacotes de macarrão, ter feito um molho caseiro bem temperado, uma salada caprichada e ainda daria para fazer um suco. Simples, mas alimentaria a mim e mais aquelas três pessoas. E meus R$20,00 foram gastos em uma batata que nem estava tão gostosa assim, faltava amor, faltava tudo, faltava minha vontade.

As pessoas merecem comer melhor, merecem ter um prato de comida saudável e bem preparada, merecem sentir o sabor de uma refeição feita com amor, por mais simples que seja. Mas como eu, uma pessoa normal pode aliviar essa injustiça? Ainda não sei. O que sei é que tudo isso está me queimando por dentro e não vou deixar essa chama apagar, quero logo fazer um incêndio!


PS: Não escrevi esse post no intuito de me colocar num pedestal e dizer, “dessa água jamais beberei, olha como sou consciente e maravilhosa”, NÃO!!! Sinceramente eu acho muito difícil sair de um sistema 100%, mas tenho como ideal encontrar uma solução inteligente e ir melhorando progressivamente. Meu discurso não me isenta de nada. Eu como alimentos industrializados e nem sempre faço as melhores escolhas, eu também colaboro com essa injustiça, todos os dias. Não vou cobrar de mim a perfeição, mas nem por isso vou simplesmente largar mão de repensar as minhas escolhas e atitudes para simplesmente seguir o fluxo. Há algo além do que vejo hoje e eu quero descobrir o que é.

Ps 2: Se você tiver uma opinião para compartilhar sobre o assunto eu ficaria feliz em ler 🙂

Com amor,

Hady