Quando terminou a faculdade de jornalismo Joe Sacco percebeu que ia ter algumas dificuldades na carreira, começando pelo o que ele realmente queria fazer da sua profissão. Em uma dessas crises existenciais, que todos nós temos de tempos em tempos, ele fez as malas para o Oriente Médio com um propósito ambicioso, escrever uma matéria jornalística no formato de história em quadrinhos. E deu certo!

Publicada pela primeira vez em 1996 a narrativa gráfica documental é considerada um marco ao introduzir o gênero “reportagem em quadrinhos”.

Abordando o conflito Israel-Palestina, Sacco viajou entre 1991 a 1992 pela região da Palestina coletando histórias nas ruas, hospitais, escolas e campos de refugiados. Nos quadrinhos Sacco torna-se personagem e através das páginas o acompanhamos pelas sua busca por histórias. Na HQ o autor mostra como vive a população expulsa de suas terras pelos israelenses, como é o dia a dia dos moradores dos assentamentos imundos, os ativistas que são presos e torturados, as pessoas que perderam seus entes queridos e principalmente o ódio instalado.

O foco principal da HQ é o povo palestino, em alguns momentos lemos algumas considerações do lado israelense, mas como o próprio Sacco escreve nos últimos capítulos seu foco é expor o lado palestino. O legal é que apesar de ser uma reportagem há também traços subjetivos e pessoais do próprio autor. Ainda mais porque Sacco não é apenas um expectador, ele está presente nos fatos, nos desenhos, tudo gira em torno dele, de seu ambicioso projeto o do que ele descobre estando na Palestina.

Assisti uns dias atrás uma entrevista que Sacco concedeu a Livraria Cultura durante a FLIP e ele ressaltou que a HQ tem muito de autobiográfica, apesar desse não ter sido planejado. Ele conta que muitos jornalistas possuem um certo receio em colocar sua opinião pessoal, ainda mais em matérias sobre zonas de conflito, mas que para ele essa é uma das melhores maneiras de envolver o leitor, colocando o autor no contexto. Apesar disso, na minha opinião, Joe Sacco não fugiu do quesito “ser jornalista”, é óbvio que o autor está envolvido com a obra e que ele não é apenas um narrador dos fatos, mas sim parte importante e ativa da história. Mas talvez eu esteja acostumada com HQs mais romantizadas, que mesmo usando fatos reais, autobiografias etc, elas possuem uma linguagem mais rebuscada, usam artifícios tanto do desenho quanto na narrativa para ressaltar sentimentos mais íntimos. Exemplos são: Persépolis, em que a autora conta sobre sua vida no Irã e mistura os fatos sociais e políticos de seu país com sua história pessoal, seus temores, sonhos e experiências. Ou ainda Craig Thompson com Retalhos, uma autobiografia muito focada em seus sentimentos, tanto que ele praticamente personifica muitos deles em desenhos. Em Palestina eu vi bastante da realidade, de uma maneira até bem dura. Claro que não é uma matéria de quatro parágrafos de um jornal desses que lemos todos os dias, então é óbvio que há traços subjetivos. Eu me envolvi com os personagens, me simpatizei e fiquei comovida com suas histórias, mas em nenhum momento esqueci do propósito do autor, que seu livro fosse uma reportagem em quadrinhos. O tom é jornalístico.

Em relação aos aspectos gráficos o livro está incrível! O que me chamou atenção foi o traço mais caricato do autor e a sequência dos quadrinhos que não seguem uma lógica comum. Quando li parecia que eu estava acompanhando Sacco pelas ruelas, observando ao longe os assentamentos e outros momentos me senti uma mosquinha voando através das pernas dos palestinos e vendo-os de uma perspectiva de baixo para cima. Sem falar nos detalhes dos ambientes, muito bom!

Indico a leitura a todos.

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Ficha do Livro

Título: Palestina

Autor: Joe Sacco

Ano: 2012

Editora: Conrad

Número de páginas: 328 páginas

Minha nota para o livro: 5/5

Até a próxima pessoal!

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