hadassahsorvillo_img_23

Já ouviu o Samba da Benção do Vinicius de Moraes? A letra começa assim:

É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração

Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não

*Se você leu no ritmo toca aqui!

Já parou para pensar que fugir da TRISTEZA talvez não seja a melhor maneira de encarar a vida? E muito menos de ser FELIZ, tipo… realmente FELIZ!

É óbvio que nós, como seres humanos, tendemos a buscar experiências que nos façam sentir confortáveis. Apreciamos nosso ambiente familiar e preferimos o que mantém nossas faculdades mentais e físicas em um estado de equilíbrio e comodidade. O grande porém é que essa tendência leva-nos a julgar e rotular experiências como “boas” ou “ruins”, levando em consideração somente o nível de conforto e prazer que nos proporcionam. Quem falou sobre isso foi o psicólogo Rollo May (1909 – 1994). Ele concluiu que quando procedemos dessa maneira estamos prejudicando a nós mesmos, pois estamos lutando contra processos que nos trariam grande crescimento e desenvolvimento, caso os aceitássemos como parte natural da vida.

Às vezes ficamos tão centrados no nosso próprio umbigo que cremos que o mundo está conspirando contra nós. Quando somos injustiçados ou magoados temos a tendência de nos perguntarmos “Por que céus? Eu sempre tentei fazer tudo certinho!”. Dorothy Rowe, uma famosa psicóloga na área da depressão, diz que o fato de nos culparmos pelo desastre que nos ocorreu pode tornar a tristeza normal (isso mesmo, TRISTEZA NORMAL) em uma depressão. Ela explica que nós podemos fazer nossas escolhas, abrir mão da ideia de um mundo justo e refletir mais racionalmente sobre as experiências negativas. Para superar esses contratempos é preciso parar de achar que tudo é pessoal, que o mundo está querendo te destruir! Enxergar os fatores externos e perceber que às vezes coisas ruins simplesmente acontecem. Nossa história não determina nosso destino. Já ouviu falar em resiliência? Enquanto há pessoas que ficam totalmente arrasadas diante de um problema, sem forças para seguir em frente. Outras pessoas, porém, reagem de modo diferente. Conseguem administrar esses altos e baixos da vida. Apesar de sofrerem elas conseguem elaborar uma maneira de superar circunstâncias dolorosas. E quem diz isso é Boris Cyrulnik, um psiquiatra que dedicou sua carreira ao estudo da resiliência psicológica. Ele descobriu que a resiliência não é uma característica inerente à pessoa, mas construída através de um processo natural. As pesquisas de Cyrulnik demonstraram que as pessoas aptas a lidar com os obstáculos da vida são aquelas que conseguem encontrar um sentido nas dificuldades. E Cyrulnik pode falar sobre isso com todos os embasamentos, tanto de estudos, quanto na sua história de vida. Deem uma olhada depois na biografia desse cara, ele sabe o que é sofrer desde muito novinho. Mesmo assim soube contornar a situação e se tornar um grande psiquiatra que dedica sua carreira ao trabalho com crianças traumatizadas.

O psiquiatra vienense Viktor Frankl em seu livro “Em Busca de Sentido” , escreveu que temos duas forças que nos permitem suportar situações dolorosas e seguir em frente: a capacidade de decisão e a liberdade de agir. Frankl enfatizou que somos nós que nos deixamos influenciar, e que até mesmo o sofrimento pode ser visto de modos diferentes, dependendo da nossa interpretação dos fatos. Ele diz que precisamos dar um sentido para tornar o sofrimento suportável. E esse sentido precisa ser encontrado, e não inventado. Nós o encontramos na vida e, sobretudo, no amor, exercendo a criatividade de acordo com a maneira como escolhemos enxergar os fatos.


A verdade é que cada um sente a tristeza de uma maneira. Uns conseguem superar, dar sentido mais rápido, outros se desesperam, e alguns não conseguem encontrar uma solução sozinhos. Todo mundo sofre, de diferentes maneiras, mas a raiz é uma só. E não adianta romantizar a vida, principalmente a alheia, estamos todos no mesmo barco. Então faça um favor a si mesmo, sente um dia desses com a Dona Tristeza, peça uma bebida e bata um papo com ela. Uma conversa sincera, sem rodeios e fugas. Leve o tempo que for necessário. Saiba que ela pode te ensinar umas e outras sobre a vida. Inclusive te ajudar a tomar novas rotas, reavaliar escolhas e criar a resistência necessária para enfrentar o que vem pela frente.

Sofrer faz parte, aceite os fatos, não é nada pessoal meu caro. Senão a vida seria como amar uma pessoa só linda. E daí? Uma pessoa tem que ter qualquer coisa além de beleza. Não se escreve um samba só na piada. Como diria o poetinha, quem faz samba assim NÃO É DE NADA. E Felicidade, ah… essa também existe, mas acho que ela começa a fazer mais sentido a medida que vamos aprendendo com o caminho.

Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não

 

Me acompanhe pelas redes sociais: FACEBOOK / INSTAGRAM / SKOOB / YOUTUBE / PINTEREST