céu_vuou

Foi assim que começou:

– Vamos cortar o caminho por esse campo.

– Mas você sabe como vamos chegar até a sua casa por aqui?

– Não, nunca tomei esse atalho, mas sei que minha casa fica atrás dessa montanha, consigo ver um ponto de referência daqui.

Ana e eu pulamos a cerca e descemos o primeiro morro do pasto. Sempre fui boa em invadir propriedades privadas. Que meus antigos vizinhos não leiam esse blog, mas já nadei em algumas piscinas alheias. Algumas vacas nos olharam curiosas e nós logo entramos no mato mais alto para evitar o campo aberto. Vacas podem ser bem bravas, já lhes aviso de ante mão. Nos afastamos um passo por vez até alcançar um cinturão de mata nativa. Estávamos longe das vacas, nossa primeira meta havia sido atingida. Mas agora estávamos em um impasse. Atravessar a mata fechada não parecia uma boa ideia. Levaríamos muito tempo andando e iríamos avançar muito pouco, levando em consideração o mato fechado que se levantava à nossa frente como um muro verde barrando a nossa vontade de chegar logo em casa, era melhor encontrar outra maneira.

Andamos por todo aquele pasto procurando alternativas para saírmos de lá.

– Vamos voltar pelo caminho que viemos. – Ana sugeriu.

– Jamais! Hoje só ando pra frente. – respondi – Vamos encontrar uma saída daqui, amiga, vai dar certo.

Andamos alguns bons metros e entramos em uma plantação de eucaliptos. Naquele momento sentimos que estávamos em um mundo à parte. A luz alaranjada do sol de outono atravessava as copas das árvores criando um balanço perfeito de cores entre as sombras. O vento gentilmente sacudia as folhas e as árvores dançavam com a ajuda dele. Parecia que ambos nos recebiam em canções de boas vindas. A terra tinha aroma, o vento sabor de especiarias e até luz parecia que podíamos tocar. Nos sentimos em paz. Olhamos uma para a outra e sorrimos. Tudo estava perfeito.

Seguindo um caminho desconhecido contávamos com a sorte para encontrar a estrada principal. Mas foi estando perdidas que nos achamos no lugar que procurávamos mesmo sem saber que precisávamos estar alí. Nós duas dissemos que aquele era o lugar que Deus havia nos mandando. Na doçura da natureza, na perdição das nossas metas, no atalho da vida, acabamos encontrando naqueles instantes uma alegria pura e simples.

Pode parecer muito pouco para você caro leitor, mas me lembrarei para sempre daquele dia.

Quando chegamos ao topo do monte tive uma visão melhor da paisagem. Reconheci a estufa de flores, a antena no topo da montanha, o campo que tem a melhor visão do pôr do sol, eu amo aquele lugar, a igrejinha na beira da estrada, os cavalos que moram no pasto da cerca caiada… O que antes eu só via de perto agora estava numa outra forma, vi tudo aquilo sob nova perspectiva. Todas as lembranças, todos os caminhos que eu havia tomado fora do curso, cada cerca que pulei, cada vaca que fugi, cada árvore que eu abracei em pensamentos, cada rajada de vento em que minha alma dançou… livre… tudo me levava de volta. Mas eu já não via a paisagem como antes. O meu quintal sorria diferente, apresentava-se novo, mesmo eu achando que o conhecia de ponta a ponta. Não… eu não conhecia.

Agora, posso olhar para algumas colinas e saber o que há dentro delas. É preciso perder-se para entender que é na perdição que muitas vezes nos achamos. Que o perdido não significa, muitas das vezes, a confusão, mas sim o encontro. Você precisa confiar e seguir em frente.

Você vive com essa doce ilusão de controle. Você não controla nada. Você é perdição meu caro. Na confusão o vento te levará de volta para o lar, para aquilo que realmente vale amar. E no final da jornada você saberá o que vive no coração da montanha, nos caminhos que a maioria das pessoas esqueceram de tomar, é ali que você encontrará suas respostas. O atalho que é só seu, que só faz sentido para você. É para lá que você deve correr. Quando sentir o desejo de sair da estrada, saia! Por Deus, saia! Siga em frente. Ao chegar no topo da montanha você entenderá. Ao final dessa caminhada você respirará aliviado. Espero que você possa entender, se eu pudesse te empurraria para fora da estrada, sai daqui… vaza!