Numa noite dessas eu estava lendo Rubem Alves. Gosto muito da maneira como ele escreve, de um jeito descomplicado e reflexivo. Posso passar horas lendo suas crônicas e mais um bocado de tempo pensando nelas. Enfim, numa dessas eu estava lendo um de seus livros, Ostra Feliz Não Faz Pérola. E cheguei nesse texto aqui:

“O Tao-Te-Ching, livro sagrado do taoísmo, já dizia há mais de um milênio que temos dois lados. Há um lado que olha para fora. Olhando para fora defrontamo-nos com o mundo da multiplicidade, 10 mil coisas que se impõem aos nossos sentidos, nos dão ordens, nos atropelam, e nos enrolam aos trambolhões, como aquelas ondas de praias de tombo. Mas há um outro lado que olha para dentro.
Aí nos defrontamos com uma única coisa, o desejo mais profundo do nosso coração, aquela coisa que, se a tivéssemos, nos traria alegria. Jesus contou a parábola de um homem que tinha muitas joias e que, ao encontrar uma única pérola maravilhosa, vendeu as muitas para comprar uma única. No primeiro lado mora o conhecimento, a ciência a bolsa de valores, a cotação do dólar, as coisas que se podem comprar, e todas as coisas que compõem a nossa vida de fora. Essas coisas são “meios para ser viver” – ferramentas que podemos usar. No segundo lado mora a sabedoria, que é a capacidade para discernir as coisas que valem a pena. Num bufê, você encheria o seu prato com tudo o que está na mesa? Somente um tolo faria isso. Você consultaria o seu desejo: “De tudo isso que está à minha frente, o que é que realmente desejo comer?”. Tolos são aqueles que, seduzidos pela multiplicidade, se entregam vorazmente a ela. Eles acabam tendo uma terrível indigestão…

Sábios são aqueles que, da multiplicidade escolhem o essencial. Simplicidade é isso: escolher o essencial”.

Como Rubem Alves disse, meios são apenas coisas, maneiras, ferramentas para se viver. Por isso se trabalha, compra, vende, estuda, corre pra lá e corre pra cá. Cada um atrás do seu quinhão. O que diferencia é a troca da ordem da multiplicidade da vida. Às vezes colocamos o que seria apenas um meio para se viver no lugar do essencial, que seria aquilo que nos motiva a viver. Um erro comum que atrapalha a nossa vida e nos deixa com aquele sentimento de vazio. Fiquei pensando nisso um bom tempo, e acho que ainda continuo perdida em meus pensamentos. Me pergunto “Qual é o desejo mais profundo do meu coração? Que da multiplicidade do mundo acabei encontrando nesse desejo o essencial? O bruto, o resumo de tudo”. 

Não vou dar a minha resposta aqui. Que graça teria? É preciso um esforço individual para fazer suas próprias conexões, reflexões e finalmente olhar para uma mesa farta e escolher apenas aquilo que o satisfaça.

 

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