DCIM100GOPROGOPR0168.JPG

São 07:00 da manhã. Estou enrolando na cama desde das 06:00. Meu corpo está aqui, com algumas sequelas, mas meu coração e mente estão longe, no topo das montanhas da Serra da Mantiqueira. Quando paro para pensar no final de semana que passei fazendo uma das travessias consideradas mais difíceis do Brasil chego à conclusão que difícil não é escalar as montanhas, acampar em locais precários ou passar frio. Difícil mesmo é voltar para a “sociedade”, encarar os velhos problemas, os alertas no e-mail, olhar no espelho e pensar que eu não queria estar me arrumando para causar uma boa impressão nos outros. Que eu gostaria mesmo é de estar suja com a poeira das trilhas, cabelo amarrado, botas nos pés e mochila das costas.

“There’s a whisper on the night wind, there’s a star agleam to guide us. And the wild is calling, calling… let us go” – Robert W. Service

Quinta-feria, dia 06 de Julho de 2017 

Acordei num salto às 03:00 manhã. Já estava vestida com minha roupas de trekking, lavei o rosto, calcei as botas, passei o café, peguei a câmera e saí pela porta da sala. Ainda estava escuro quando fechei a última porteira do sítio e entrei no carro para começar uma das grandes aventuras da minha vida. Ao meu lado meu velho companheiro de aventuras, no porta malas duas mochilas, no Spotify tocava Mumford & Sons e do lado de fora a estrada tomava seu curso. Nosso destino, Passa Quatro – MG, mas antes uma parada em Itamonte – MG para deixar o carro estacionado na casa do Marquinhos, um mineiro muito gente boa que faz o resgate dos montanhistas. Para quem não sabe, resgate é quando uma pessoa, ou uma empresa, leva os montanhistas até o começo da trilha e depois busca no final dela. Por ser uma travessia nós não terminamos a trilha no mesmo ponto que começamos.  De Itamonte até o começo da trilha, na Toca do Lobo, demoramos em média uns 40 minutos no carro do Marquinhos. Nos despedimos e combinamos o horário de encontro no Domingo ao final do percurso.

* Para quem tiver interesse em anotar o contato do Marquinhos, aí vai: 9 9113-1214 / 9 8428-1059

DCIM100GOPROGOPR0055.JPG

No início da trilha já estava à nossa espera o Luiz Fernando, trilheiro experiente e amigo do meu pai, mas que também tenho a alegria de chamar de meu amigo aventureiro. Independente das nossas diferenças, quando conversamos sobre trekking falamos a mesma língua. Já fiz algumas viagens com o Luiz, e quando comentei que queria fazer a Serra dos Órgãos, no Rio de Janeiro, ele perguntou se eu topava fazer a Serra Fina. Obviamente topei na hora. E já que ele tinha feito a travessia antes, ele seria o nosso guia. Com ele veio o Vagner, um cara muito gente fina e engraçado que tem no currículo o circuito da Patagônia e que pratica rapel há um bom tempo. Todo animado ele apresentou a sua esposa, Thalita. A Thalita não costuma fazer trilhas e travessias, mas ficou animada e quis enfrentar a Serra Fina ao saber que teria uma mulher no grupo. O Luiz riu ao dizer, “Mal sabe ela que tipo de mulher é a Hadassah”. Mas independente o “tipo”de mulher que eu sou, ela se deu muito bem na travessia e mostrou bastante garra.

Todos reunidos, mochilas nas costas, fizemos uma oração e começamos a nossa caminhada até a Toca do Lobo, o primeiro e último ponto de água até o final do segundo dia. A Serra Fina é considerada uma das travessias mais difíceis do Brasil não só pelo grau de subidas e descidas arriscadas, mas também pela falta de água. Os pontos são poucos então precisamos carregar um média de 3 a 4 litros (por pessoa) de água nas costas, levando em consideração o preparo das refeições e hidratação. Esse peso a mais conta na hora da caminhada! A água torna-se um dos bens mais preciosos nessa trilha.

A água que cai direto da montanha é deliciosamente gelada! Mesmo aparentemente limpa não esquecemos de adicionar algumas gotas de hipocloreto de sódio nas nossas garrafas. Abastecidos começamos subir até o Quartzito, a 2020m de altitude.

DCIM100GOPROGOPR0166.JPG

Seria muita burrice encarar a Serra Fina sem preparar 0 psicológico e físico para as subidas. Se você não tiver uma cabeça forte para encarar os picos já desisti logo no começo. Olhar aquelas montanhas e pensar que terá que atravessa-las pode causar um desânimo. No primeiro dia me senti assim. Mas o Luiz me deu um conselho muito bom. Olhar para baixo e seguir em frente, sem pensar muito no meu cansaço. Penso que na vida, muitas das vezes, também é assim. Quando o desafio é grande ao invés de olhar lá na frente é melhor focar no agora, dar o melhor de si no momento presente. E quando menos percebermos a montanha terá sido conquistada.

Assim que saímos da Toca do Lobo foi só subida atrás de subida. E não se engane, meu caro leitor, a trilhas da Serra Fina não abertas e limpas. Em muitos momentos havia apenas um rastro no caminho fechado pela vegetação, que tivemos que passar afastando árvores e apoiando as mãos em rochas. Uma experiência pra lá de agradável, para quem gosta de enfrentar desafios ao ar livre. E para quem não liga para alguns cortes nas mãos, unhas lascadas e sujas. Ah, uma dica, use luvas! Ajuda a projetar as mãos durante as escaladas.

Perto da 1 da tarde paramos para almoçarmos. Cada um abriu sua mochila e comeu o que trouxe de casa. Eu eu meu pai havíamos tomado um café reforçado no meio do caminho até Passa Quatro, então nosso almoço foi um lanche de assado de legumes, castanhas e frutas secas. Depois de uma parada para algumas fotos retomamos o caminho até o topo do Camelo a 2380m de altitude, passando pelo Cotovelo. Para chegar até lá tivemos que passar pela primeira crista da travessia. E foi inesquecível. Para mim foi como passar por um portal mágico. Me senti finalmente parte daquela imensidão. Como uma iniciação. Eu estava oficialmente enfrentando o desafio em meio à natureza praticamente intocada pelo homem, tão majestosa e imponente que se levantava à minha frente. Aparentemente intransponível, mas que eu conseguiria descobrir e enfrentar, dando um passo por vez.

Da crista até o Cotovelo e depois até o Camelo. Foram por esses pontos que passamos no primeiro dia. A ideia era acampar em algum local após o Alto do Capim Amarelo, mas quando chegamos ao topo do Camelo já eram 17:00, em menos de uma hora já estaria escuro. Conversamos e chegamos à conclusão que seria mais prudente montar acampamento por lá mesmo. Vimos muitos montanhistas fazendo a trilha durante a noite. Essa escolha vai de pessoa para pessoa. Nosso grupo optou por sempre montar o acampamento ainda com a luz da dia. Por alguns motivos, como mais comodidade, segurança e também para descansarmos mais tempo.

Quando terminamos de montar as barracas o sol já ia se escondendo no horizonte. Uma das minhas cenas favoritas! Gosto muito de ver o pôr do sol, em geral, mas vê-lo se despedindo em cima das montanhas é ainda mais encantador. Me senti muito grata e feliz. Não fotografei. Estava tão entretida com a paisagem que quis viver aquele momento em sua plenitude, sem me preocupar em fotografar, sem pensar em nada, apenas aproveitar e guardar cada segundo na minha memória. E mesmo que eu tivesse fotografado, nenhuma foto ia traduzir a beleza daquele momento. Viver é muito melhor! Mas não se preocupem, tirei fotos nos dias seguintes da travessia, vou publicar nos próximos posts 🙂

Depois das 18:00 não tínhamos muito o que fazer. A temperatura começou a baixar e o vento ficou mais forte. Restou fazer a janta e nos ajeitarmos para passar a noite. Enquanto meu pai fazia sua higienização pessoal (Não tem como tomar banho nessa trilha. Então, sim… passamos quatro dias limpando nossos corpos com lencinhos umedecidos. Sem frescura gente, é suportável!) eu fazia uma bela macarronada no fogareiro. E mesmo economizando água a janta estava muito boa. Eu e meu pai comemos até dizer chega! Sou da seguinte opinião, comer bem é importante, independente do local. Mesmo numa trilha, dá para fazer uma comida muito gostosa, é só montar o cardápio certo.

Enquanto eu cozinhava um ratinho silvestre apareceu bem perto da nossa barraca. Seu medo nenhum ele se aproximou da sacola de comida e tentou surrupiar um pedaço de pão. Levei um susto no primeiro momento! Imagina você, ver um rato assim, na maior cara de pau tentando roubar sua comida! Depois caí na risada e achei a coisa mais fofa do mundo. Joguei no chão um pouco de macarrão e ele veio correndo, pegou um pedaço e logo se escondeu no arbusto perto da barraca. E assim terminei meu primeiro dia dividindo minha janta com um rato. Melhor experiência! Que se repetiu no dia seguinte. Das duas uma, esse rato me seguiu pela trilha atrás de comida ou os ratos da Serra Fina já estão tão acostumados com os trilheiros que eles sabem que vão ter comida fácil perto dos acampamentos. Por isso eles são ousados o suficiente para chegar perto de nós, humanos. Acredito que seja a segunda opção.

Comida guardada, mochilas organizadas, roupas limpas e duas meias nos pés depois… estávamos dentro dos nossos sacos de dormir. Prontos para enfrentar nossa primeira, e gelada, noite na Serra Fina.

Mapa da Serra Fina

Mapa da Serra Fina

CONTINUA…

Com amor,

Hady