Como é difícil falar desses sentimentos que levo dentro do peito, desses pensamentos que orbitam na minha cabeça… calma, pensando bem não é tão difícil assim. Talvez isso que seja difícil, não ser tão difícil. Se você mostrar interesse eu me abro, que nem flor de cacto em terra seca. Por entender que humano é bicho frágil eu aceito minha condição de não racionalizar tudo, de sentir tudo. Involuntariamente desabrocho em mãos alheias.

Aí me arrependo do dito, porque sei que a medida do outro difere da minha. O olhar do outro é diferente, a reação do outro não é a que espero ou pior… nunca é a que eu quero. O que digo soa diferente quando bate no ouvido do outro. Uma tempestade não passa de um assobio, uma brisa soa como trovão. Difícil colocar-se no lugar do outro. Difícil e dar-se para o outro.

Não é difícil lhe dizer o que sinto. Você pode sentar aqui do meu lado, te passo um café e lhe conto tudo que vai dentro do meu universo. Não tenho muita paciência para tentar melhorar meus sentimentos ou mascara-los. Nunca lhe prometi perfeição, muito menos superficialidade. Dos meus defeitos eu já sei e deles até estou aprendendo a gostar, ou no mínimo a tolerar. O que não é fácil, mas necessário. Concordo, seria mais doce se eu lhe dissesse ao pé do ouvido o que você gostaria de ouvir. É mais fácil tirar a roupa do corpo do que puxar o manto que cobre a alma.

Bem sei que nessa vida a via não é de mão única, você também tenta explicar-se entre mistérios, mas eu não entendo. Juro que estou tentando te colocar em um dicionário só meu. Quero te ler em palavras, nos silêncios, os olhares, os gestos… mas não me formei em você. A gente nunca se forma nos outros. Infelizmente somos apenas médicos, publicitários, biólogos, advogados e professores… Se eu pudesse gostaria de me graduar no teu cheiro, no teu sorriso, nos teus lábios, nas entradas das suas costas, no pulsar do teu pescoço, nesses teus olhos que parecem mar em ressaca me puxando para dentro de você. Mas não consigo. Numa sequência de leituras erradas eu me afogo em incertezas, tomo minha garrafa e para o jardim me dirijo com papel e caneta nas mãos.

Não é complicado falar de sentimentos, todos nós dizemos – mesmo que involuntariamente – aos outros o que sentimos. Dizemos no nosso jeito de andar, em um olhar, num gesto, no barulho das nossas confusões… no silêncio das nossas confusões. Dizemos até quando não sabemos o que dizer. O difícil mesmo é encontrar alguém que consiga decifrar. Alguém que enxergue a lágrima que brota de um sorriso, escondida numa bravura indefinida. Alguém que saiba que o seu “não” pode ser um “sim” disfarçado, e vice e versa. Alguém que entenda a sua bagunça e não queira arrumar, que consiga sentar no sofá e rir do caos. Por mais duro que seja, o amor é em maior parte aceitação.

Me escute menino, um dia alguém vai te aceitar. Nem que esse alguém seja você mesmo. Nem que isso leve uma vida toda. Nem que você tenha que aceitar que a pergunta sempre será maior que a resposta, e ponto. Ninguém lhe prometeu que seria fácil, mas já que estás por aqui me escute… viva, como der, o melhor que puder.

Deixe menino, que o tempo mostre, que o tempo dê o ponto, que o tempo traga, que o tempo leve, que o tempo acomode…

Com amor,

Hady