Godless para mim era a promessa de um seriado feminista com direito a um enredo em que as personagens femininas fossem por si só a grande atração. Afinal, uma série que traz em sua chamada “Welcome to no Man’s Land” e tem como proposta um enredo de faroeste comandando por mulheres, já é por si só um convite a expectativa de uma série onde as mulheres seja as grandes protagonistas. Certo? Só que não!

As mulheres em Godless tornam-se em muitos momentos meras coadjuvantes de uma história de vingança entre dois homens. A sacada de marketing foi ótima e cativou a atenção, porém a história não foi aquilo que venderam, já a execução foi primorosa. Frustrante? Sim. A série é ruim? Não, muito pelo contrário! O problema foram as minhas expectativas, que me levaram lá para cima e me trouxeram para o chão em poucos episódios. No resumo não era o que eu esperava, mas nem por isso deixei de gostar.


No dia 22 de Novembro a Netflix lançou a minissérie Godless que totaliza 7 horas e meia de duração. Separada em sete episódios que variam entre 41 a 80 minutos de duração. Se você é fã de faroeste, histórias de vingança, drama, a busca pela verdade, sequência de cenas de tiroteios intensas e sangrentas, então senta aí e dá o play.

Godless se passa no ano de 1884 na cidade de La Belle, onde um acidente em uma mina ceifou a vida de todos os homens numa tacada só. Depois do acidente resta apenas as mulheres, crianças e os poucos homens que eram velhos demais para trabalharem como mineradores e o xerife da cidade. As mulheres de La Belle conseguem sobreviver a custa de muito trabalho e sofrimento. Além da falta de dinheiro elas também enfrentam o desamparo e o trauma da tragédia que levou a vida de seus maridos. Aos poucos elas acabam encontrando apoio para reconstruir suas vidas umas nas outras. Apesar das dificuldades o cotidiano dessas mulheres seguia uma certa calmaria, até que surge um rapaz ferido no rancho de Alice Fletcher. Esse rapaz é Roy Goode (Jack O’Connell) e ele está fugindo de Frank Griffin (Jeff Daniels), o líder de um bando de ladrões extremamente temido na região. Griffin não é apenas um chefão do crime, é um psicopata e assassino que baseia suas ações na religião. O que o torna ainda mais sinistro não é fato somente das suas atrocidades, mas a crença que ele tem de estar fazendo algo correto e justo. Ele consegue persuadir a todos do seu bando, que são igualmente doentios. Bem, todos não, Goode é um ex-bandido do grupo de Griffin. Frank o considerava inclusive como filho, mas quando Roy foge levando consigo o dinheiro de um roubo que o grupo fez, Frank e seu bando passam um pente fino pelo território à sua procura. A vingança de Frank é cruel. Como um justiceiro que leva a palavra de Deus nos lábios ele assassina pessoas inocentes pelo simples fato de alguém ter acolhido Roy Goode de alguma maneira. Essa busca tem seu fim quando Frank descobre que seu “ex filho” está escondido em La Belle, uma cidade habitada praticamente só por mulheres. Um alvo fácil que resultará em uma vingança doce, ou nem tanto.

Godless me tirou o sossego logo no primeiro episódio (não darei spoilers), as cenas de violência explicita podiam ser o principal motivo da minha perturbação (tire as crianças da sala). Porém a violência por si só não teria tanto efeito se ela não viesse carregada com a motivação das atrocidades que o espectador é levado a assistir. A motivação que é perturbadora. O primeiro episódio é só um presságio do climão pesado que acompanhará a série. Ok, pode ter gente aí que leve isso numa boa. Caros leitores eu confesso que sou fraca, emocionalmente pendo para o lado do emotivo, mas acho que até os espectadores mais acostumados ficariam um pouco perturbados com várias das cenas. Não é ação pela ação, tiro pelo tiro. Repito, é pesado e doentio. Porém há luz no fim desse túnel, enquanto há cenas de partir o coração ou esfregar o terror na tua cara, há também momentos de beleza (que direção de fotografia meus amigos, que fotografia) e uma comédia comedida que consegue aliviar um pouco a sensação de constante alerta e temor que a série provoca.godless

O grande trunfo da série, que me fez assistir até o fim, é a sensação de estar vivendo a história junto com os personagens. E por incrível que pareça a previsibilidade torna-se um aliado. A série não traz esperanças românticas e não há grande reviravoltas. É como se a história entrasse num fluxo em que já é possível prever o resultado. Os personagens são o que são, suas experiências, suas ambições e desejos podem vacilar, mas no final as decisões são já esperadas e os resultados inevitáveis. Você assiste ao seriado sabendo como será a resolução do enredo e por mais que isso não pareça motivador no fim é cativante. Não há espaço para enrolação, apesar das ondulações que anunciam em vão uma mudança na direção do roteiro, ele é o que é sem tirar a beleza de previsibilidade.

A beleza estética da série também é inegável. As locações no Novo México que são incríveis. Sendo eu uma grande amante da natureza e de paisagens selvagens, fiquei admirada com várias das cenas que surgiam. Cenas de deserto, cânios, céus dramáticos, montanhas e pradarias. E a colorização? Poxa, muito boa! A direção de fotografia está excepcional.

Porém, se a proposta era apresentar um enredo onde as mulheres fossem o núcleo e por si só independentes e fortes o suficientes para carregarem a histórias nas costas, Godless falhou. As personagens são sim fortes, mas são muito mal utilizadas e acabam tornando-se em muitos momentos apenas uma muleta para os personagens masculinos que carregam em si o protagonismo e perfil psicológico com conflitos bem mais trabalhados e intensos. É como se as mulheres orbitassem em torno de alguns poucos homens. Para mim isso foi um pecado, sendo que havia tantas maneiras de explorar a força dessas mulheres! Nos poucos momentos em que surge a esperança de um aprofundamento nas personagens femininas a série não consegue ir muito além das preliminares. Excita, mas não termina o trabalho. A terra sem homens é só um convite para que os personagens masculinos surjam com mais intensidade. Eles são a causa dos problemas e redenção daquelas mulheres. O que é no mínimo injusto. Salvo o último episódio onde o faroeste feminino surge nos últimos minutos do segundo tempo. Se a ideia era criar um faroeste comandado totalmente por mulheres, na minha opinião falharam. O que não tira o brilho da série, não vou fincar aqui uma bandeira extremista dizendo que Godless é um um lixo só porque vendeu um conceito, mas entregou outro.

A nota da série no IMDb ficou em 8,6

Minha Nota: ★★★★ (muito bom)