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Shampoo para lavar minha hipocrisia

Há duas semanas atrás parei de lavar meu cabelo com shampoo. O motivo? Toda vez que eu acabava com uma embalagem de shampoo, ou condicionador, me sentia incomodada em jogá-la fora, obviamente era minha consciência dizendo “ó tem algo errado aí, esse plástico todo vai ficar rodando pelo planeta por muitos e muitos anos”. Incomodava porque eu sabia que algo estava errado, comigo, com o mundo, com o sistema, enfim… O planeta anda essa droga desde que me conheço por gente.

Usei bicarbonato, mel, vinagre e maizena na tentativa de abolir o shampoo da minha vida. Os primeiros dias ficaram ok, mas depois deu caspa, queda, algo que eu já esperava. Mas não foi esse o problema, dizem que o couro cabeludo demora algum tempo para se adaptar a essa nova realidade e eu estava disposta a continuar tentando, tudo pelo bem das tartarugas e baleias! O que me incomodou mesmo foi a minha hipocrisia.

Luiz Felipe Pondé é um desses filósofos que discordo em algumas coisas e concordo em grau em outras. E uma de suas ideias que concordo é a praga que os POLITICAMENTE CORRETOS viraram. Politicamente correto é o movimento de pessoas que buscam moldar comportamentos, hábitos, gestos e linguagem para gerar a inclusão social de certos grupos e, por tabela, combater comportamentos, hábitos, gestos e linguagem que indiquem uma recusa dessa inclusão. Parece ótimo hein? Pois é, parece… o politicamente correto de hoje é muito amplo com fenômeno, mas sempre é autoritário na sua essência, porque supõe estar salvando o mundo combatendo com a mesma essência de ódio em relação a alguém que discorde. Se os politicamente corretos querem a liberdade para exercer seus gostos e direitos porque não permitem que o contrário a eles também seja feito? E me poupe em dizer que TODOS SÃO LIVRES e que você AMA AS DIFERENÇAS, balela. Ninguém se sente confortável com alguém que vai contra suas ideias, pelo menos não por muito tempo. É por isso que existem tantas religiões, grupos sociais, etc. Ficamos com aqueles com quem nos sentimos mais confortáveis. O que resta mesmo é ser tolerante com os “outros”, e ando pensando que de vez em quando calar a boca é uma ótima opção. Não dá para entrar numa briga com pessoas com verdades absolutas, então poupe seus nervos.

E não nego que muitas mudanças positivas vieram de movimentos que lutaram pela minoria, que foram contra a opressão de uma ideia “total”, qual é, sou uma idealista por natureza. Não há cura para o meu caso. Ao passo que estou tentando ser realista. É que o politicamente correto virou algo bonitinho, moderninho e cool. Mas de palavras vazias esse mundo está repleto e de aparências ele já saturou! Vamos para a passeata tirar uma selfie, vamos para a parada gay gritar a liberdade sexual, vamos abraçar uma árvore no dia da árvore, vamos para a marcha das vadias com coroas de flores e dizer um basta ao “fiu fiu”. Lindo, todo mundo faz um post no Instagram e Facebook com uma imagem bacana com um filtro vintage e belos dizeres na legenda. Curtidas, queremos curtidas! E voltamos para casa até o próximo movimento. Não é por R$0,20, foi lindo! Mas acabou, é isso gente? Cadê aquele fogo, aquilo que queima de verdade dentro de nós quando vemos que algo anda muito errado? Acomodados, politicamente acomodados, filhos das redes sociais que se escondem atrás de uma tela para gritar opiniões vazias. E me coloco nesse meio, estou nessa também. E que me perdoem os VERDADEIROS engajados socialmente. Mas sinceramente isso fede, tudo regado pelo falso amor pela humanidade. Porque se queremos fazer tudo certo o jeito seria explodir a terra e pedir para Deus começar tudo de novo, mas a questão aqui não é teológica ou sobre a minha cosmovisão.

Passei duas semanas lavando o meu cabelo com produtos “naturais” e esquisitos, tudo para que as tartarugas não comessem uma das minhas embalagens por engano no oceano. Bonitinha essa história né? Também achei. Mas a real mesmo é que ando muito longe desse meu ideal. A intenção é que vale? Até pode ser. Uma vez meu pai me disse “Hady, nunca vamos estar fora do sistema, mas tente ao máximo não depender dele”. E é isso que eu busco. Não sou romântica. E também não quero ser uma politicamente correta que acaba virando uma chatinha de carteirinha. No final das contas lavei o meu cabelo com shampoo, que as tartarugas me perdoem mas a coisa estava feia para o meu lado, meu couro cabeludo já estava criando espécies ainda desconhecidas pela ciência. Dissolvi uma pequena quantidade do produto em um copo de água e lavei o cabelo, gasto menor, mas mesmo assim usei o “produto do mal” hahahaha. Foi bom, não lavei só o meu cabelo mas essa ideia absurda que vou salvar o mundo também foi pelo ralo.

Que não posso salvar o mundo isso já saquei, o que não significa que vou jogar a tolha, apenas optei por ser mais ponderada. Não vou colocar nas minhas costas ideias extremistas, não vou fazer os outros se sentirem pior ou menos inteligentes por não serem iguais a mim. E principalmente não vou bancar algo só na aparência. Seria muita burrice! Gritem daí, vou-me por aqui, o caminho contrário me parece bem mais interessante.

 

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Coragem querido coração

Há momentos na vida que até parece que o universo decidiu fazer de tudo para complicar as coisas pro teu lado. Um trabalho que não saiu, uma discussão com alguém que você ama, a falta de coragem para tomar certas decisões, enfim… tu tens os teus motivos e eu tenho os meus para encontrar uma razão para sofrer ou desistir no meio do caminho.

Sempre fui uma pessoa  com os sentimentos à flor da pele, mas quando percebi que isso não era lá uma grande qualidade comecei a cuidar mais do meu pobre coração, o coitado não precisa sofrer por tão pouco. E não está sendo uma tarefa fácil, mas ando me esforçando.
Inclusive recebi mensagens de pessoas dizendo que sentiam falta dos meus textos antigos, aqueles em que eu vomitava meus sentimentos sem medo de julgamentos, pois é pessoal… mudei. Encontrei outras maneiras de expressar minhas desilusões. Continuo sem medo dos pensamentos alheios, mas olhei para mim e vi que precisava calar-me, guardar os meus segredos. O que também não me impede de ter meus momentos de reflexão aqui no blog. A grande verdade é que percebi que há certos problemas que aumentam na proporção que os valorizamos. Então estou dando uma de relax. Dificultando para a tristeza, culpa e críticas. Difícil? Muito! Mas estou curtindo o desafio.

Hoje fui arrumar minhas malas para uma viagem que vou fazer a trabalho, aí me bateu uma vontade de chorar por X motivos. Sentei encostando-me na porta do cafofo e pensei “okay Hady te deixo chorar, você está com isso engasgado, vai… se derrete”. Tentei por um tempo, e mesmo com aquilo engasgado eu não consegui soltar uma única lágrima! Peguei minhas roupas, dobrei e enfiei numa mochila, fechei a janela, fiz meus relatório de ganhos e despesas do mês, e quando dei por mim o nó na garganta havia sumido. Eu só precisava seguir em frente, fazer o que precisava ser feito ao invés de bancar a vítima da minha própria comédia. E é bem verdade o que dizem; uma hora a tristeza vai embora, as dúvidas tornam-se afirmações, você abandona certas coisas para encontrar novas experiências lá na frente ou se engaja no que realmente vale à pena, porque nem sempre desistir é o melhor caminho. E não adianta arrancar os cabelos ou se desesperar entre as transições, quanto mais calma tivermos mais fácil será a análise e o crescimento. Vai passar e todos nós vamos superar e aprender com tudo isso. E se precisar chorar, chore! Se precisar sumir por uns tempos, suma! Só não mal trate você mesmo e as pessoas que estão ao teu lado.

Estou tentando focar no que realmente importa e aprendendo a relevar certas coisas. É muito barulho por nada! E sinceramente não estou disposta a gastar minhas energias por aquilo que não vale nem uma nota de rodapé na minha história. Estou simplificando e seguindo em frente! Olhar para trás nunca foi uma opção.

 

Vida

Em algum lugar há alguém que te admira

Ontem abri meu e-mail logo pela manhã e entre mensagens de trabalho, propagandas e notificações recebi uma mensagem enviada por uma leitora, que por respeito não irei publicar o nome nesse post. Quando li o que ela me escreveu fiquei muito contente, não vou transcrever tudo aqui, mas teve uma parte do e-mail que eu gostaria de compartilhar com vocês:

Nossa Hadassah, como tu me mudou! Te acompanho desde o antigo blog. Não sei se você vai ler isso, mais eu quero te agradecer, muito mesmo por tudo, por todas as experiências, por você me influenciar, me cativar, como me faz pensar na vida e me inspira. Como seu blog cresceu, muito merecido, fico imensamente feliz só de pensar que tem outras pessoas que também se inspiram através de seu blog, que sentem a mesma alegria que eu ao ler um texto seu; e espero que ele cresça cada vez mais, que você consiga novas conquistas e seja cada vez mais feliz, porque você merece.
E para finalizar: OBRIGADA! Eu já mandei esse texto pela pesquisa, mas mandei depois que já tinha terminado. Estou mandando de novo porque não sei se leu, e queria muito que você ficasse feliz por saber o quão importante tu és! – Leitora do blog

No momento que li essa mensagem meus olhos ficaram um pouco marejados, confesso. O dia começou bem e eu respirei fundo e pensei “em algum lugar nesse mundo há uma pessoa que eu nem conheço, mas que tem apreço por mim”. E isso é uma delícia, aquece a alma como uma grande e boa caneca de café.

Às vezes parece que estamos nadando sozinhos, que a vida é solitária, que tudo que fazemos são gritos e o que recebemos em troca são ecos da nossa própria voz. Mas não é bem assim. Saiba que em algum lugar desse mundo tem alguém que te admira, que acompanha o teu trabalho e acha relevante tuas opiniões. Que há pessoas que nem sabem o seu nome, mas sorriem quando você passa por elas dando um bom dia. Há aqueles que agradecem em silêncio quando você abre uma porta, cede um banco no transporte público. Há pessoas que te acompanham com os olhos quando passas pelo corredor da faculdade ou trabalho e te admiram, simplesmente te admiram, sem nenhum outro motivo além de te acharem uma pessoa encantadora. E muitas das vezes você nem desconfia disso. Não esqueça que “muitos que há que te contemplam”. Então seja você mesmo, seja coerente. E lembre-se nem sempre dá para agradar todo mundo, então não pira na esperança de querer ser algo que não é só para agradar a massa, porque essa é a mais triste das ilusões. Seja você, existem pessoas que valorizam isso.

Não vivemos numa bolha, apesar de muitas vezes acharmos que sim. Então não custa nada ser gentil, não custa nada fazer algo por livre e espontânea vontade. Haverá pessoas que vão se sentir mais felizes com a tua presença ou com as suas ideias. E o inverso também pode acontecer. Se você admira alguém não custa nada falar, engole essa vergonha, comente algo gentil ou dê um sorriso. Por que nunca erramos quando damos carinho.

PS: Querida leitora que me enviou essa mensagem, já te respondi por e-mail, mas se você está aqui novamente, lendo esse post, só queria que soubesse que você me fez muito feliz sim. Aprendi muito com você e mesmo não te conhecendo te admiro pelo simples fato de você existir! Te desejo uma vida linda, longa e próspera! 

 

Foto via Pexels

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Elementar meu caro Watson

Talvez uma das coisas mais questionáveis dessa vida seja a tal da felicidade. Lembro que conversava com um amigo pela internet e ele me questionava sobre o assunto, como perguntas do tipo se eu era feliz, onde encontrar a felicidade, etc.

Lembro de ter dito que as pessoas complicavam muito a tal da felicidade, como se houvesse uma fórmula mágica em algum lugar do mundo esperando para ser tomada, e que num piscar de olhos, pronto, estaríamos realizados para o resto de nossas efêmeras vidas! Não vejo a felicidade dessa maneira.

A felicidade não é tanto o objetivo final que alcançamos, como se fosse a estação final de um trem, mas um modo de viajar, ou seja de viver. – A. G. Roemmers

Acredito que a felicidade seja um equilíbrio que também exige que algumas necessidades básicas sejam supridas, como alimento, moradia, pessoas que te acolham e estímulos sociais. Ninguém é feliz sozinho. Até um dos caras que mais admiro pelo estilo de vida que levou, chamado Christopher Johnson McCandless também conhecido como Alex Supertramp, chegou à conclusão ao final de sua aventura que a felicidade só é real quando compartilhada. A felicidade está relacionada à liberdade, ética, autoestima e amor. É um estilo de vida. Temos que aprender a exercer a nossas melhores capacidades, e dessa maneira atrair o que nos enriquece emocionalmente e espiritualmente.

Atualmente há mais necessidade de ter e aparentar, do que simplesmente ser. Essa inversão de valores acaba ofuscando o real significado de ser feliz, de apreciarmos o que já temos e de gastarmos nossas energias em coisas relevantes que nos proporcionem aprendizado e não apenas um objeto caro na prateleira. Algumas pessoas podem discordar, mas dá para ser feliz com menos, até porque esse sentimento não é enlatado ele está mais atrelado à satisfação pessoal. E se isso signifique sair de um emprego, tomar um novo rumo de vida ou qualquer outra iniciativa que nos motive, é assim que dever ser feito. Mas que fique claro que esse não será o fim de seus problemas e questionamentos. A vida é uma constante de sofrimentos atrelados a momentos bons. E ambos carregam ensinamentos profundos e oportunidades de mudança, nada é descartado se você souber como utilizar. Como diria Paulo em Filipenses 4, “porque já aprendi a contentar-me com o que tenho. Sei estar abatido, e sei também ter abundância; em toda a maneira, e em todas as coisas estou instruído, tanto a ter fartura, como a ter fome; tanto a ter abundância, como a padecer necessidade. Posso todas as coisas em Cristo que me fortalece.”

Da conversa que tive com esse amigo lembro que no final eu disse que a felicidade devia ser como uma história do Sherlock Holmes, que depois de tantas pistas e reviravoltas ele chegava a uma conclusão e todos ficavam boquiabertos em ver que a solução estava mais perto do que imaginavam. A felicidade para mim é assim, algo que complicamos de uma maneira tão grande que acabamos nos perdendo nas teias de expectativas que criamos em torno dela.

Por isso decidi que a felicidade é o agora, sem complicar, apenas confiando e me aventurando nessa vida com a melhor companhia que posso imaginar, Deus.

Elementar meu caro Watson, a felicidade está no lugar que nem pensamos em procurar, dentro de nós mesmos. Por isso a complexidade. Poucas pessoas têm coragem de voltar-se para dentro delas mesmas. É complicado demais encarar-se. Mas quer um conselho? Você só será feliz quando decidir viver a partir do que você acredita, e não na vã necessidade de impressionar os outros.

Mas a viagem ainda é longa. Temos tempo suficiente para desfazermos nossas velhas opiniões e aprendermos coisas novas. Sente aqui ao meu lado e vamos apreciar a paisagem.

 

foto via Pexels

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Descubra seu Tûk Interior

 “Esse hobbit era um hobbit muito abastado, e seu nome era Bolseiro. Os Bolseiros viviam nas vizinhanças da Colina desde tempos imemoriais, e as pessoas os consideravam muito respeitáveis, não apenas porque em sua maioria eram ricos, mas também porque nunca tinham tido nenhuma aventura ou feito qualquer coisa inesperada: você podia saber o que um Bolseiro diria sobre qualquer assuntos sem o ter o trabalho de perguntar a ele. Esta é a história de como um Bolseiro teve uma aventura, e se viu fazendo e dizendo coisas totalmente inesperadas. Ele pode ter perdido o respeito dos seus vizinhos, mas ganhou – bem, vocês vão ver se ele ganhou alguma coisa no final.” (O Hoobit, pág. 2)

Há um tempo atrás publiquei no Instagram uma foto de um livro que comprei com o título “O Hobbit e a Filosofia”. E muitas pessoas se interessaram principalmente pela proposta do livro, que é analisar a obra de Tolkien através de grandes pensadores e filósofos. Bem, não vou fazer uma resenha do livro, por enquanto, mas gostaria de escrever um pouco sobre um dos capítulos da obra que fez muito sentido para mim, e com o qual aprendi algumas coisas.


 

“ A pedra preciosa não pode ser polida sem fricção, nem o homem pode ser aperfeiçoado sem provações” – Confúcio

 

Antes mesmo de ser uma história de aventura O Hobbit fala sobre crescimento pessoal, o de um pequeno e comum hobbit que não gostava de aventuras e nem de ser atrasar para o jantar e que de uma hora para a outra encara uma jornada perigosa pra ajudar um bando de anões a convite de um mago cinzento.

Em geral os hobbits não são conhecidos por grandes feitos ou por aventuras que tiveram. Na verdade quanto mais pacata for a vida de um hobbit mais confiável ele é. Mas Bilbo tinha algo de diferente de todos os outros, o sangue dos Tûks. Sua mãe, Beladona Tûk pertencia ao clã dos Tûks, que não eram apenas ricos, mas também conhecidos por seu amor por aventuras. Já os Bolseiros, por parte de pai, eram respeitáveis hobbits e nada aventureiros. Quando Gandalf faz uma visita a Bilbo se mostra bem irritado com a postura acomodada do hobbit, e o convida para uma jornada perigosa, qual obviamente Bilbo nega aceitar. Mas o mago sem prestar atenção à opinião dele diz que ele vai mesmo assim, pois será divertido para ele, Gandalf, e muito bom para Bilbo, além lucrativo se a aventura fosse bem sucedida.

Logo no começo dessa perigosa jornada, Bilbo percebe que está muito longe de sua confortável toca e que a viagem não será tão fácil como “passear de pônei ao sol de maio”. Ele mostra-se constantemente amedrontado com tudo que o rodeia, reclamão e muitas vezes salvo por um puro golpe de sorte. Entretanto gradualmente sua coragem e confiança começam a crescer. Tolkien disse que tanto a história de Bilbo quanto a obra O Senhor dos Anéis falam sobre o enobrecimento dos humildes. “São histórias de pessoas comuns – pequenas aos olhos dos “sábios” e poderosos – que realizam grandes feitos e alcançam estatura heroica ao aceitar desafios, suportar dificuldades e valer-se de inesperadas forças de caráter e de vontade […] Em resumo, O hobbit é um conto de aventura no qual uma pessoa comum e sem qualquer característica heroica é moralmente “enobrecida” ao confrontar e superar desafios e perigos. ” (BASSHAM, G. O Hobbit e a Filosofia. Rio de Janeiro, 2012. p. 13)

Todos nós podemos crescer, em vários aspectos – tanto em estatura, conhecimento, espiritual, e assim por diante. No caso de Bilbo o crescimento foi moral e intelectual. Para Bassham (2012, p. 16) em termos filosóficos Bilbo cresce tanto em sabedoria quanto em virtude como resultado de suas aventuras. E independente de como as diferentes religiões encaram o saber, toda elas e as tradições filosóficas concordam que a sabedoria consiste em uma profunda compreensão sobre a vida.

 “Uma pessoa sábia entende o que é importante na vida, mantém as coisas de menor importância na perspectiva adequada e compreende o que é necessário para viver bem e para lidar com os problemas cotidianos” – Adaptado de Nozick, The Examined Life: Philosophical Meditations (Nova York: Siomn & Schuster, 1989), p. 267.

Quando vemos Bilbo enfrentando as dificuldades é perceptível que as experiências desafiadoras o tornaram mais sábio e destemido. Os hobbits do Condado são reservados e provincianos e Bilbo compartilhava muitas desses percepções limitadas com seus vizinhos. Com o decorrer da jornada ele percebe que há assuntos mais elevados na vida. Ele descobre o autossacrifício, heroísmo, conhece novos povos com sistemas e valores bem diferentes dos dele, percebe que a Terra Média vai além de sua toca. Passa a enxergar o mundo, e a si mesmo, de uma maneira diferente quando confrontado pelas dificuldades.

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São experiências que aprofundam nossa compreensão sobre nós mesmos e também ampliam nossa maneira de encarar as coisas, pessoas e até valores. Gandalf percebe isso ao dizer na página 294 do livro, “Meu querido Bilbo! Há algo de errado com você! Não é mais o hobbit que era”. Segundo Sócrates o primeiro passo para se tornar sábio e ter noção o quão pouco se sabe é fazer um autoexame, “conhece-te a ti mesmo”, uma de suas famosas frases. “O filósofo compreendia que as pessoas tendem a ter visões infladas de si próprias. Elas tendem a ser confiantes demais e acreditar que sabem mais do que realmente sabem ou que, de certa forma, são melhores do que são. Alguém que já se considera sábio e bondoso não terá motivação para buscar a sabedoria e a bondade. Portanto, o primeiro e mais importante passo para adquirir sabedoria, declarava Sócrates, é se dedicar a um destemido autoexame.”(BASSHAM, G. O Hobbit e a Filosofia. Rio de Janeiro, 2012. p. 17).

Os filósofos viam de duas maneiras pelas quais as aventuras e desafios podem promover esse crescimento moral. Uma rápida, e outra gradual. A primeira se dá por razão de algum acontecimento chocante ou traumáticos em nossas vidas, como quase morrer e ter uma nova chance para reavaliar a vida. Essas mudanças repentinas podem acontecer, mas são raras e nem sempre duradouras. Já as o crescimento gradual é feito através de treinamento, de quedas e recuperações, de tentativas frustradas e outras que dão certo. Aristóteles (384-322 A.C) dizia que a virtude é um hábito, um padrão enraizado de resposta moral. E simplificando ainda mais é só usar o esporte como exemplo. Ninguém nasce bom o suficiente em uma modalidade, é preciso anos de treino, muita dedicação, e erros um atrás do outro até começar a acertar o passo. Nenhum grande maratonista nasce com comprometimento, resiliência e disciplina, é preciso conquistar com trabalho duro. “A grande percepção de Aristóteles foi ver que o desenvolvimento ético normalmente acontece da mesma maneira. Para desenvolver a virtude da disciplina. Precisamos nos esforçar, desenvolver bons hábitos”(BASSHAM, G. O Hobbit e a Filosofia. Rio de Janeiro, 2012. p. 21). Vemos isso em Bilbo, seu desenvolvimento moral acontece gradualmente conforme as superações, ao passar por testes, conhecer coisas novas e ganhar autoconfiança. Cada vez que ele reage de maneira corajosa ou positiva frente a uma situação de desafio ele aprende com isso, desenvolvendo hábitos como liderança e coragem. As aventuras de Bilbo o modificaram de maneira permanente. Ele não usou o caminho mais fácil, nem aprendeu da maneira mais confortável, e muitos de seus vizinhos do Condado acharam tudo aquilo uma loucura. Apesar disso Bilbo foi feliz pelo restante de sua vida, ele voltou para casa, mas já não era o mesmo.

Fiquei pensando nisso por um bom tempo. Às vezes reclamamos das dificuldades ou desistimos no primeiro obstáculo que aparece pela frente. É fácil ser feliz e se dar bem em uma situação favorável, o problema é que a vida não é um mar de rosas, há muitos dragões soltos por aí, florestas com criaturas perigosas e Orcs querendo nos destruir. Mas se encararmos a jornada como Bilbo, como uma crescente autoanálise podemos chegar ao fim dela surpreendidos com nosso crescimento. Mesmo que não sejamos as pessoas mais bem vistas na nossa sociedade, bairro ou família. O importante é não negarmos a aventura por medo do desconhecido. Como diria Theodoro Roosevelt:

Muito melhor é se atrever a coisas grandes, é obter triunfos gloriosos, mesmo que marcadas pelo fracasso, do que alinhar com aqueles pobres espíritos que nem desfrutam muito nem sofrem muito, porque eles vivem no crepúsculo cinzento que não conhece vitória nem derrota (…) A mais alta forma de sucesso (…) não chega ao homem que deseja a mera paz fácil, mas para o homem que não foge ao perigo, por meio do sofrimento ou da penosa labuta, e que, por causa disso, recebe o máximo esplêndido triunfo.”

A vida sempre nos lava para a estrada então deixe seu sangue Tûk falar mais alto! Desejo uma grande aventura para todos! Que possamos ser provados no fogo e por meio das dificuldades cresçamos tanto moralmente quanto em sabedoria. E se aparecer um mago na sua porta que você diga logo um “sim”.

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