Literatura

Anne Frank foi a minha melhor amiga.

20 de maio de 2016

Quando tinha 12 anos li pela primeira vez O Diário de Anne Frank. Na época eu estudava em casa e meu círculo social era bem reduzido, se formos comparar com as demais crianças da minha idade que frequentavam a escola “normal”. Esse fato não me incomodava em absolutamente nada. Eu adorava estudar em casa! No entanto preciso ser sincera ao fato de que era uma criança solitária. Acredito, analisando hoje, que a minha personalidade introspectiva também tinha seu quinhão no fato.

Naquela época para mim era extremamente normal viver em um mundo à parte, em uma chácara com meus pais, irmãos, cachorros, papagaio, mini vaca, pônei, lagartos, galinhas, tartarugas, tucano, macaco, etc. Sim, já tive muitos animais! Era divertido ser diferente e aproveitar os benefícios de uma vida mais livre, longe de uma sala de aula. Era eu, uma casinha no campo, minha família, meus animais e meus livros. Fui muito feliz vivendo assim.

Hoje, mais madura e um pouco mais vivida, reconheço que aos doze anos minha visão de mundo era bem diferente das demais crianças da minha idade. E os livros que eu lia foram responsáveis por isso. Nas páginas gastas de muitos livros que encontrei minhas amizades mais duradouras. Não achem estranho. Há pessoas que se sentem mais confortáveis vivendo outras histórias e em outros universos. Eu era uma dessas pessoas. Muitos personagens da literatura tornaram-se meus amigos e conselheiros.

anne frank

Uma das minhas melhores amigas dessa época foi Anne Frank. Quando li os primeiros capítulos do seu diário senti uma atração instantânea pela personalidade da menina. Eu sentia como se a conhecesse de longa data. Nossas opiniões combinavam, apesar de ela ter vivido muitos anos antes de mim, numa época diferente e num cenário mundial bem mais crítico. Mas sei lá, algo nela lembrava a mim mesma. Mesmo ela sendo muito espontânea, mandona e irreverente. Talvez fosse o gosto pela escrita e sua alma sonhadora.

Com Anne Frank aprendi que escrever é a melhor maneira de entender seus próprios sentimentos e desabafar.

Aprendi que você nem sempre vai ser a pessoa mais agradável aos olhos dos outros, mas que é preciso manter-se firme aos seus ideais apesar das opiniões alheias.

Que a vida é dura, e muito, ainda mais para Anne que na adolescência precisou se esconder para salvar-se da guerra. Ser madura não é só questão de idade, você não precisa ser velho para entender algumas coisas sobre a vida. Há jovens muito mais maduros e sábios que alguns velhos por aí, isso depende de como você encara a vida, e como aproveita a sua experiência cotidiana para aprender e sempre evoluir.

Que é preciso manter alguns segredos por sanidade própria. Ser um livro aberto pode machucar as pessoas que estão ao seu lado e a si próprio. Guarde certas opiniões só para você.

Aprendi que o mundo é injusto, que pessoas boas morrem, que nem sempre o final é feliz. Anne morreu muito jovem em um campo de concentração sem nunca saber que seu diário um dia iria ser um dos livros mais vendidos do mundo! E que esse livro um dia acabou sendo adquirido pela minha avó, que por sua vez o deixou na estante da minha casa e que em uma tarde preguiçosa foi encontrado por mim. Anne nunca soube que o seu diário me ajudou, me acompanhou, alegrou, me emocionou e cativou durante anos a fio.

anne frank

Até hoje, lendo uma nova edição de capa azul (essa aí da foto), consigo entender perfeitamente o por quê de eu ter amado tanto Anne quando eu tinha doze anos. Dez anos se passaram e Anne continua sendo uma boa companhia. A menina franzina de sorriso cativante que mostrou ao mundo um ponto de vista diferente sobre a segunda guerra mundial. E o mais incrível, sem fazer a menor ideia do que estava produzindo! Muitos dizem que o livro sofreu diversas alterações, para mim pouca importa. A essência está lá, pelo menos espero que sim.

anne frank

Se um dia eu tiver uma filha vou dar de presente no seu 12º aniversário a velha edição do livro que foi da minha avó. Talvez isso demore um pouco (ou até não aconteça, quem sabe do futuro?), então pretendo presentear a Eliza Victória também com esse livro quando ela fizer doze anos. Espero que ela encontre nessas páginas o mesmo amor, coragem e determinação que eu encontrei.

anne frank

Anne foi minha melhor amiga na época em que eu não tinha muitas amigas. Anne foi a garota forte, determinada, inteligente, questionadora, ao mesmo tempo frágil e cheia de indagações sobre o mundo e sobre si mesma. Para mim Anne foi a amiga perfeita, com quem eu podia sempre contar.

Meu Deus! Como um livro pode mudar a vida de uma pessoa dessa maneira? É tão mágico! E hoje, quando acabei mais uma releitura, das inúmeras que já fiz, fiquei divagando em pensamentos sobre a importância dos livros na vida das pessoas.

Quem aí tem livros que são praticamente seus melhores amigos? Que formaram seu caráter, que te ensinaram muitas lições, que te acompanharam em jornadas pessoais? Eu tenho uma lista! Quem sabe um dia eu compartilhe aqui no VUOU.

anne frank

Me conta qual livro te faz suspirar toda vez que você lê. Vou gostar muito de saber 🙂 Até a próxima pessoal!0

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8 Comments

  • Reply Babi Lopes 20 de maio de 2016 at 10:51 AM

    Quanta ternura junta em um post só! Eu praticamente ouvi sua voz ao ler seu texto, apesar de não saber como ela é! 🙂

    Eu nunca li Anne Frank. Sempre fui rata de biblioteca, mas de uns anos pra cá entrei em um ritmo de vida (que não me orgulho) onde eu não tinha tempo/sossego pra curtir um livro. Até uns meses atrás quando finalmente conseguia sentar pra ler, por ter outras coisas me preocupando, eu não conseguia concentrar ou prestar atenção naquilo que eu estava lendo. Era muito frustrante e desde então não peguei em outro livro, coisa que pesa bastante na minha consciência quando comparo o quanto eu lia antes 🙁

    Enfim. As fotinhas estão lindas e me fazem querer que teletransporte existisse de verdade mesmo.

    bêjo :*

  • Reply Inês 20 de maio de 2016 at 11:22 AM

    Também gosto muito desse livro. Já fui visitar o sítio onde ela esteve escondida, em Amesterdão e foi uma experiência dura, mas que vale a pena. Nunca me esqueci de algumas frases que as pessoas que visitaram o local deixaram por lá, uma delas dizia assim: “all her would have’s are our opportunities”.

  • Reply Fernanda 25 de maio de 2016 at 8:05 PM

    Que post mais lindo! Esse foi o primeiro livro que li esse ano.. devorei em 4 dias e amei!

    • Reply Hadassah Sorvillo 27 de maio de 2016 at 6:48 PM

      Obrigada Fernanda! Em apenas 4 dias! Uau, hahaha, gostou mesmo hein? Mas se bem que esse é um livro que vale à pena ser devorado, você está certa!
      Acho que vou reler a minha vida inteira, de tanto que eu gosto.

  • Reply Patricia Yumi 13 de junho de 2016 at 3:51 AM

    Ameei ler o Diário de Anne Frank, e até hoje é um dos meus livros preferidos, que aliás, quero muito reler. Achei linda sua relação com a Anne e como um livro pode mudar alguém. E realmente, Anne é uma garota muito madura e inspiradora, seria incrível bater um papo com ela.

    • Reply Hadassah Sorvillo 29 de junho de 2016 at 11:43 PM

      Oi Patricia! Acho que todo mundo que leu esse livro acabou se identificando e gostando da Anne. Ela foi uma garota muito especial <3

      Obrigada pelo comentário, bjs!

  • Reply Fabiana Diniz 18 de setembro de 2018 at 9:05 PM

    Haddy como me identifico com a forma que transmite emoções nos relatos! Que bom que voltou a escrever no blog! Conheci o Vuou há um tempinho atrás e depois descobri que estava fora. Nossa como é lindo o seu trabalho! Continue a emocionar as pessoas com esse blog! Quanta essência!

    • Reply Hadassah Sorvillo 19 de setembro de 2018 at 1:54 PM

      Oi Fabi!

      Obrigada pela mensagem, fiquei muito feliz ao ler. Feliz de saber que você gostou do texto e também por saber que de alguma forma o VUOU te emociona. Isso preenche meu coração de alegria!

      Continuarei a escrever, é meio que a minha maldição. Ou benção, hihi, vai saber…

      Um grande abraço para você!

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