A primeira vez que assisti ao filme A Festa de Babette foi por indicação do meu pai. Ele disse que eu precisava ver, que era minha cara, que ele tinha lembrado muito de mim… enfim, me deu vários motivos empolgados e depois de uma boa propaganda sentei uma noite após as aulas para assistir ao tal filme que meu pai tanto falou. E bem, ele estava certo.

A Festa de Babette é um filme franco-dinamarquês de 1987 e foi inspirado em um dos contos mais célebres de Karen Blixen. A história se passa na costa da Noruega onde duas senhoras puritanas, filhas de um pastor protestante, vivem de maneira devota ao preceitos luteranos pregando a salvação através da renúncia. Até que um dia recebem a visita de Babette, uma misteriosa francesa que, fugindo de Paris, lhes pede abrigo em troca de serviços domésticos. Babette é aceita no novo lar pois traz consigo uma carta de recomendação de Papin, velho amigo das senhoras que havia sido apaixonado por uma delas no passado. O vilarejo é composto por famílias extremamente religiosas e que possuem o hábito de comer apenas o básico. Pratos sonsos, sem sabor, só por sobrevivência mesmo. Um dia, Babette tira a sorte e ganha um bilhete premiado na loteria. É a possibilidade de retribuir o bem às irmãs, ela então prepara um grande jantar para a comunidade local, com os mais refinados ingredientes, com sabores e texturas jamais experimentados por aquelas pessoas. Grandes mudanças na vida simples do vilarejo se apresentam a partir desse jantar.

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O filme, em suma, fala sobre como os personagens tão alienados em suas convicções não se permitiam aos prazeres de uma boa refeição. Achavam que Babette era uma bruxa, como se cozinhar fosse um ritual de feitiçaria. Rubem Alves em uma de suas crônicas diz que certa maneira eles estavam certos. “Que era feitiçaria, era mesmo. Só que não do tipo que eles imaginavam. Achavam que Babette iria por suas almas a perder. Não iriam para o céu. De fato, a feitiçaria aconteceu: sopa de tartaruga, cailles au sarcophage, vinhos maravilhosos, o prazer amaciando os sentimentos e pensamentos, as durezas e rugas do corpo sendo alisadas pelo paladar, as máscaras caindo, os rostos endurecidos ficando bonitos pelo riso, in vino veritas. Está tudo no filme A Festa de Babette. Terminado o banquete, já na rua, eles se dão as mãos numa grande roda e cantam como crianças… Perceberam, de repente, que o céu não se encontra depois que se morre. Ele acontece em raros momentos de magia e encantamento, quando a máscara-armadura que cobre o nosso rosto cai e nos tornamos crianças de novo.”

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O encanto dessa história está exatamente nessa quebra de conceitos, nessas mudanças que algumas sensações podem acarretar. No caso, um jantar saboroso, uma mesa bem posta, um cardápio bem elaborado. A graça de compartilhar momentos, interagir todos juntos em uma mesa com infinitas possibilidades de sensações. Os moradores daquele vilarejo descobrem uma alegria a muito esquecida e que foi desperta pelo simples ato de degustar um saboroso jantar.

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Quem pensa que a comida só faz matar a fome está redondamente enganado. Comer é muito perigoso. Porque quem cozinha é parente próximo das bruxas e dos magos. Cozinhar é feitiçaria, alquimia. E comer é ser enfeitiçado. – Rubem Alves

Gosto de pensar que uma boa comida é porta para o coração, porta para as recordações, porta para o carinho. Meu pai me indicou esse filme porque ele sabia que assim como Babette eu vejo graça em preparar pequenos encantamentos na cozinha. Não que eu me ache uma grande cozinheira, apenas quero deixar as pessoas ao meu redor felizes ao compartilhar uma refeição. Comer é algo bom, todo mundo sabe disso, mas poucos são os que encontram a felicidade em servir, em cozinhar. A graça de ir até o mercado, ou feira, e escolher os ingredientes, ir para cozinhar e seguir receitas, experimentar e criar suas próprias técnicas, aguçar o sabor e por fim montar a mesa, servir e observar as as reações das pessoas.

A comida tem essa magia, os encantos visuais, o toque, o sabor, com amor, gerar momentos de prazer. Sem pressa. O prazer de preparar as etapas, montar os pratos, é uma construção. Concordo com Rubem Alves. “O prazer de comer mesmo não é muito demorado. Pode até ser muito rápido, como no McDonald’s. O que é demorado são os prazeres preliminares, arrastados — quanto mais demora maior é a fome, maior a alegria no gozo final.” 

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Muitas reflexões podem ser tiradas de A Festa de Babette, mas para mim o que ficou mais marcado foi que a vida tem seus prazeres e que fomos dotados por Deus para espalhar alegria e boas sensações. Um artista ao pintar seu quadro, um escritor ao publicar uma história, um cantor ao provocar empatia com suas letras, um arquiteto ao construir belos prédios, e um cozinheiro preparando seus pratos. Um cozinheiro renomado que trabalha em um restaurante famoso, um pizzaiolo, a mãe, a vó, você, não importa a posição ou grau de instrução, cozinhar sempre será uma grande magia.

Penso que Deus deve ter sido um artista brincalhão para inventar coisas tão incríveis para se comer. Penso mais: que ele foi gracioso. Deu-nos as coisas incompletas, cruas. Deixou-nos o prazer de inventar a culinária. – Rubem Alves

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